A chegada de Hakim Ziyech ao Botafogo marca o desfecho de uma história complexa vivida pelo marroquino nos últimos meses. O atleta de 33 anos desembarcará no Rio de Janeiro nesta terça-feira, às 19h45, para assinar contrato com o clube carioca até dezembro de 2028. Mas antes de vestir a camisa alvinegra, o ponta vivenciou uma passagem tumultuada pelo Wydad Casablanca, repleta de gols impressionantes, motivações pessoais e conflitos administrativos que ajudam a explicar sua saída do futebol marroquino.
A decisão de Ziyech retornar ao Marrocos não foi meramente profissional. Vindo de experiências problemáticas no Galatasaray e no Al-Duhail, ambas marcadas por lesões recorrentes, o jogador acatou um pedido especial. Sua mãe desejava sua volta ao país de origem, e Ziyech, compreendendo a importância familiar, concordou em se transferir para o Wydad Casablanca. Essa escolha pessoal, porém, não seria suficiente para garantir uma permanência tranquila e duradoura.
Uma performance ofensiva impressionante em contexto adverso
Entre janeiro e junho de 2026, Ziyech participou de 16 jogos pelo Wydad Casablanca. Os números ofensivos foram notáveis: nove gols marcados e duas assistências, uma média que demonstra sua contribuição decisiva ao time. Apesar do número relativamente pequeno de partidas, seu impacto foi significativo. O jornalista marroquino Ayoub Basri, que acompanhou de perto a passagem do atacante, oferece perspectiva importante sobre o contexto em que esses números foram alcançados.
Segundo Basri, o Wydad Casablanca atravessava um período de transição organizacional delicado. O clube iniciava uma nova era após anos afastado de seus glórios passados, quando conquistou duas Ligas dos Campeões da África. A pressão institucional era imensa, e o elenco não correspondia às expectativas. Além disso, alguns companheiros de equipe não possuíam o nível técnico necessário para acompanhar as qualidades de um jogador da estatura de Ziyech. Mesmo diante dessas limitações estruturais, o marroquino entregou seu máximo dentro do campo.
Um dos momentos memoráveis da passagem foi sua atuação no clássico contra o FAR Rabat, quando marcou um gol espetacular que ficou na memória dos torcedores marroquinos. Porém, o contexto geral não era favorável. O Wydad, que havia disputado a Copa do Mundo de Clubes em 2025, não manteve seu nível competitivo em 2026, terminando a Botola (liga nacional de Marrocos) apenas na quinta colocação. A instabilidade técnica também pesou: durante a temporada, o clube trocou de treinador em três ocasiões diferentes.
Lesões menores, mas problemas maiores fora do campo
Apesar de passar por cinco partidas de ausência por lesões—número significativamente inferior aos problemas de saúde vividos nos clubes anteriores—Ziyech manteve uma boa performance quando estava em condições ideais. O jornalista marroquino reconhece que o atacante 'não foi nada mal', considerando as adversidades enfrentadas. Quando disponível fisicamente, o ponta apresentava seu futebol criativo e goleador.
O real problema não estava no desempenho técnico, mas nos bastidores administrativos. Ziyech havia reduzido sua pretensão salarial justamente para atender o pedido da mãe de retornar ao Marrocos. Essa redução de salário foi um gesto de sacrifício pessoal pelo retorno ao país. Contudo, quando a nova direção do Wydad Casablanca assumiu, buscou realizar cortes ainda mais significativos no pagamento do jogador, ignorando os esforços já realizados anteriormente.
Essa tentativa de redução adicional do salário gerou desentendimentos profundos entre Ziyech e a cúpula do clube. O jogador sentiu-se desrespeitado pela forma como era tratado. De um lado, o novo presidente enfrentava graves problemas financeiros e buscava reestruturar o time com profissionais que tivessem menor custo salarial. Do outro, Ziyech reconhecia que já havia feito sacrifícios consideráveis e não aceitava ser tratado de forma que considerava humilhante. A divergência de interesses criou um fosso que se aprofundou ao longo dos meses.
Currículo europeu e perspectivas no Rio de Janeiro
Antes de sua experiência marroquina recente, Ziyech havia conquistado destaque nas principais ligas europeias pelo Ajax e pelo Chelsea. Seu melhor momento na carreira foi na seleção marroquina, onde se destacou na Copa do Mundo de 2022, quando o país alcançou a quarta colocação no torneio. Ironicamente, não foi convocado para a Copa de 2026, marcando um afastamento da seleção que ainda reverbera.
O Botafogo oferece a Ziyech um salário inicial inferior a um milhão de reais, com possibilidade de atingir valores próximos a essa marca caso metas sejam alcançadas até o final de 2028. Essa proposta financeira representa uma alternativa viável após os conflitos do Wydad. Ayoub Basri encerra sua análise da passagem marroquina com esperança para o futuro do jogador no Brasil: 'Se ele se mantiver saudável e em boas condições físicas, e se o início de sua passagem pelo Botafogo for positivo e ele conquistar o carinho da torcida, acredito que as coisas vão dar certo'. A próxima capítulo da história de Ziyech começa quando seus pés pisarem no Galeão nesta terça-feira.