Vilma Zago estava acompanhando o marido em uma consulta dermatológica rotineira quando o médico notou algo que ela nem considerava importante: um carocinho na virilha do tamanho de uma bola de gude. Aquele pequeno detalhe que subia e descia sob a pele quando tocado revelaria um diagnóstico que ela nunca havia ouvido falar — carcinoma de células de Merkel, um câncer de pele raro e agressivo que já havia se espalhado para os linfonodos. Vinte anos antes, o marido Gilson havia enfrentado outro câncer de pele diferente, mas igualmente avançado. Entre um caso e outro, a medicina não permaneceu estática.
A revolução que ninguém via vindo
Quando Gilson recebeu o diagnóstico de melanoma em 2004, os tratamentos disponíveis eram brutais e pouco eficazes. A cirurgia era o primeiro passo — naquele caso, retirada da lesão e esvaziamento dos linfonodos do pescoço com 28 pontos. Depois disso, nada. Nenhum comprimido, nenhuma infusão intravenosa. Apenas raio-X periódicos e exames de sangue cada vez mais espaçados, na esperança de que a doença não retornasse.
Estatísticas apontavam que melanomas com comprometimento ganglionar voltavam em mais de 90% dos casos. Gilson ficou entre a minoria que não apresentou recidiva. Foi sorte, não medicina — e esse era o estado da oncologia em 2006, quando o G1 foi lançado. A cirurgia, radioterapia e quimioterapia respondiam por cerca de 90% de todos os tratamentos para tumores sólidos. Havia poucas terapias-alvo e nenhum inibidor de checkpoint imunológico. O primeiro seria aprovado apenas em 2011.
O pedal que o câncer aprendera a pisar
A maioria das tentativas de usar o sistema imunológico contra o câncer funcionava como um acelerador descontrolado. Interferon e interleucinas eram despejados no corpo em doses massivas de substâncias inflamatórias, deixando o paciente tão doente quanto o tumor era impressionado — um fracasso silencioso que durava anos.
O imunologista James Allison formou uma pergunta diferente: e se, ao invés de acelerar, o remédio apenas tirasse o pé do freio? O sistema imunológico possui células de defesa chamadas linfócitos T que patrulham constantemente o corpo, identificando células anormais e as destruindo. Porém, para impedir que essas células se voltem contra o próprio organismo, a evolução instalou pedais de segurança na superfície dos linfócitos — moléculas chamadas CTLA-4 e PD-1 que, quando acionadas, desligam a defesa no meio da ação.
A descoberta revolucionária foi perceber que o tumor havia aprendido a pisar nesse pedal. Muitas células cancerosas se revestem de uma proteína chamada PD-L1 que encaixa perfeitamente no PD-1 do linfócito, como uma chave numa fechadura. A célula de defesa chega, reconhece o tumor, se prepara para destruí-lo — e é desligada no instante do contato. O câncer não era invisível. Ele tinha a senha.
James Allison receberia o Nobel de Medicina em 2018 junto com o japonês Tasuku Honjo, que havia descrito o segundo freio. Os remédios nascidos dessa descoberta não matam célula alguma. São anticorpos monoclonais — proteínas fabricadas em laboratório que ocupam fisicamente o pedal de freio, impedindo que o tumor desative a defesa.
Quando o câncer se torna crônico
O impacto nos números é dramático. No câncer de pulmão metastático, a sobrevida mediana era contada em dez meses no início dos anos 2000, com apenas 15% dos pacientes chegando a dois anos de vida. Hoje, em pacientes que respondem bem à imunoterapia, a taxa de sobrevida de cinco anos chegou a 33% — uma chance em três, quando antes era uma em 25.
Vilma começou a receber avelumabe em julho de 2024, anticorpo que bloqueia a PD-L1, aprovado pela Anvisa em junho de 2018 como primeiro tratamento específico para seu tipo de câncer. Os primeiros meses foram brutais: tremores, dor nas pernas, náusea, vômito. Mas os exames de PET-CT a cada seis meses não encontram nada desde então. Ela já passou da quadragésima infusão e anda pedindo autorização ao médico para viajar.
O obstáculo invisível
Uma dose mensal do remédio que mantém Vilma em remissão custa mais de R$ 20 mil. O plano de saúde dela não cobria. A alternativa teria sido não tratar — até que uma ação judicial força o pagamento. Essa ironia se repete globalmente: a imunoterapia funciona onde antes nada funcionava, mas seu preço a coloca fora do alcance de praticamente qualquer sistema de saúde.
Em maio de 2024, a Conitec abriu consulta pública sobre incorporar o pembrolizumabe — um dos imunoterápicos mais usados no mundo — para cânceres de pulmão, esôfago, mama triplo-negativo e colo do útero. A comissão reconheceu por escrito o benefício clínico indiscutível. E barrou no preço. O impacto orçamentário era alto demais. Não foi um não à ciência, mas ao valor cobrado por ela.
O Brasil tenta atacar o problema na origem. Em março de 2024, o Ministério da Saúde assinou parceria com o Instituto Butantan e a MSD para produzir pembrolizumabe em território nacional — a mesma estratégia que derrubou custos de vacinas e antirretrovirais décadas atrás. Enquanto isso, há uma ironia latente: o melanoma de Gilson é hoje um dos cânceres com imunoterapia disponível no SUS, com tratamento preventivo reduzindo em até 40% o risco de recidiva. O câncer raro de Vilma permanece fora da rede pública e dos planos de saúde — deixando seu tratamento dependente de decisões judiciais.
Stefani, o médico que cuidou do casal, possui hoje um dilema que não existia vinte anos atrás. Com Gilson, perguntava-se se ele sobreviveria. Com Vilma, diante de exames limpos, a questão é quando parar o tratamento. Não há resposta estabelecida para um tumor tão raro. Ele prefere não arriscar, e a próxima infusão já está marcada.