Aos 14 anos, Xiaomei comprou pela internet um medicamento para tosse sem qualquer restrição. Bastaram alguns cliques e sua identidade nacional digitada em uma plataforma de vendas online para receber uma caixa completa na porta de casa. O remédio custava pouco menos de um dólar e prometia algo que ela desesperadamente procurava: uma fuga temporária da pressão avassaladora dos exames escolares que se aproximavam.

O que começou como uma experiência isolada se transformou em um padrão perigoso. Durante dois anos, a adolescente consumiu doses progressivamente maiores de diferentes medicamentos vendidos apenas com receita médica — nenhum deles havia sido prescrito para ela ou sua família. Todos adquiridos pela internet, frequentemente recomendados em grupos de bate-papo por outros jovens que compartilhavam a mesma busca desesperada pela chamada 'euforia farmacêutica'.

A dimensão do problema invisível

Quantificar a magnitude dessa crise é complexo, pois existem poucos números oficiais sobre o abuso de medicamentos controlados entre adolescentes chineses. Contudo, a situação tornou-se grave o suficiente para que o governo chinês iniciasse, há dois anos, uma ofensiva nacional contra o medicamento para tosse consumido por Xiaomei. A substância foi reclassificada como psicotrópica e passou a ser disponibilizada apenas mediante receita médica, dificultando significativamente sua compra online.

A resposta das autoridades chinesas demonstra o reconhecimento oficial do problema. Posteriormente, em abril de 2025, as autoridades observaram que os adolescentes migraram para outro medicamento e impuseram controles mais rigorosos sobre sua prescrição e venda em farmácias. Ainda assim, a BBC recebeu ofertas do produto em chats online por apenas dez yuanes chineses, equivalente a pouco mais de um dólar.

Um relatório de 2025, elaborado para o Instituto de Prevenção de Crimes do Ministério da Justiça da China, destaca que conseguir substâncias não regulamentadas permanece fácil. Quando as autoridades controlam um medicamento específico, os jovens encontram alternativas rapidamente. Descobriu-se que adolescentes usam nomes diferentes para se referir às drogas, evitando detecção pelos algoritmos de busca das plataformas.

Por que medicamentos? A pressão sem escape

A explicação para esse fenômeno reside em fatores estruturais profundos da sociedade chinesa contemporânea. Xiaomei relata que muitos colegas de sua classe de elite comentavam sobre formas de tomar doses excessivas de medicamentos controlados para evitar se sentir 'totalmente fracassados'. 'É muito difícil ser aprovado nos exames e se manter nas classes de elite', confessa ela. 'Na nossa escola, essas classes funcionam mediante um sistema de eliminação. Se as suas notas diminuem, você é expulso do grupo.'

O sociólogo chinês Xiang Biao, diretor do Instituto Max Planck de Antropologia Social, explica que parte dessa pressão provém dos pais, que frequentemente consideram seus filhos sua única esperança de futuro. A política do filho único, vigente na China por décadas até 2016, concentrou todas as expectativas familiares em uma única criança. 'O que diferencia os adolescentes chineses é o seu ambiente de isolamento', afirma Biao. 'Eles passam pelo menos nove ou dez horas na escola e têm muito poucas possibilidades de formar relações sociais e observar como realmente é a vida.'

Consequências físicas e mentais alarmantes

Os efeitos do consumo indiscriminado de medicamentos controlados vão além do entorpecimento temporário. Quando Xiaomei ingeriu um medicamento destinado a controlar crises epilépticas como forma de reduzir ansiedade, sua memória se deteriorou rapidamente. 'Eu não conseguia me lembrar de nada com clareza e vivia em um estado constante de atordoamento', relata ela.

Mais preocupante ainda é o vínculo observado por especialistas entre o abuso de medicamentos controlados e o aumento dos casos de automutilação. A BBC observou jovens incentivando uns aos outros nas salas de bate-papo a se cortarem 'para sentir algo'. Meses antes de um exame crucial, Xiaomei chegou ao ponto crítico: tomou 50 comprimidos de uma só vez e começou a entrar em pânico.

Reconhecimento da crise de saúde mental

Em 2023, um estudo realizado para o Livro Azul de Saúde Mental da China revelou que cerca de 95 milhões de pessoas sofrem de depressão. Dentre elas, mais de 30% são menores de 18 anos. O governo chinês finalmente reconheceu a necessidade de oferecer apoio para promover a saúde mental dos adolescentes, incluindo a criação de salas de orientação em todas as escolas e serviços psiquiátricos em pelo menos um hospital de cada condado.

Os dados são encorajadores: 92% das escolas primárias e 95% dos estabelecimentos de ensino secundário básico já contam com orientadores. Muitas cidades grandes começaram a integrar a saúde mental no currículo. Porém, continua havendo escassez crítica de psiquiatras especializados em crianças e adolescentes — um estudo de 2020 indicou que havia na China apenas 500 psiquiatras pediátricos qualificados, muitos exercendo profissão em grandes cidades como Pequim e Xangai.

A importância do apoio familiar

Para Xiaomei, tudo mudou quando seus pais finalmente a escutaram de verdade. Após sua overdose e ida ao hospital, eles pararam de fazer comentários duros e começaram a conversar com ela. 'Saber que há alguém do meu lado fez com que eu me sentisse muito bem', afirma ela. Este novo apoio emocional chegou a ajudá-la a atingir bons resultados naquele tão temido exame de admissão.

Lu Jingchan, um jovem de 22 anos que sofreu mais de quatro overdoses em um período de quatro anos, abandonou todas as medicações e dedica seu tempo nas redes sociais a incentivar outros jovens a não iniciar o consumo. 'Espero que eles consigam enfrentar a vida de frente, sem necessidade de medicamentos para dormir', orienta ele. 'Se sofrerem de overdose, quero oferecer coragem para que eles parem. Acredito que suas vidas irão melhorar. Acredito que todos encontrarão a felicidade.'

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