Depois de 11 anos longe do Brasil e com uma turnê de despedida oficialmente encerrada em 2023, Elton John decidiu que a aposentadoria poderia esperar um pouco mais. Aos 79 anos, o pianista e cantor britânico pisou no palco do Rock in Rio na segunda-feira (7 de setembro) para fazer história: tornou-se o headliner mais velho da história do festival, com um espetáculo de 2 horas e 15 minutos que provou que nem mesmo a idade consegue diminuir o carisma de uma lenda do rock.

Trajando um terno impactante com paletó amarelo fluorescente e camisa azul marinho, Elton entregou um repertório repleto de 24 músicas que atravessam décadas de carreira. Esta marcava a terceira volta ao Rock in Rio e a oitava vez que ele pisava em solo brasileiro, mas desta vez com um diferencial claro: mais descanso, mais voz e uma execução musical nitidamente melhorada em comparação com apresentações anteriores. A vinda compensaria aquela ausência que deixou fãs brasileiros 'de bico' durante sua turnê de despedida global.

Uma volta estratégica e merecida

Quando a Farewell Yellow Brick Road Tour encerrou oficialmente em 2023, após impressionantes 330 shows espalhados pelo mundo, a comunidade de fãs brasileiros se sentiu abandonada. O cantor havia pulado o Brasil naquela rodada final, uma escolha que alimentou meses de especulação entre admiradores. Porém, o que parecia ser um adeus definitivo revelou-se flexível. Elton John aceitou apresentações pontuais e estratégicas, como este show no Rio e dois outros agendados para outubro no México, mudando assim o significado de 'aposentadoria' para sua carreira.

Essa decisão de voltarem com seletividade mostrou-se acertada não apenas artisticamente, mas também fisicamente. O intervalo prolongado entre apresentações devolveu fôlego que seria impossível manter em uma turnê contínua. Com 79 anos, cada nota econômica vale ouro, e Elton demonstrou estar mais descansado, com a voz visravelmente mais encorpada do que em outras visitas recentes. Não por acaso, ele próprio admitiu momentos antes do encerramento do show: 'Não tenho muita voz sobrando, mas vou cantar essa', referindo-se à despedida com 'Your Song'.

Baladas que definem gerações e vendagens de ouro

O setlist da noite provou por que Elton John vendeu mais de 300 milhões de discos em todo o mundo. Faixas como 'Goodbye Yellow Brick Road', 'I Guess That's Why They Call It the Blues', 'Tiny Dancer' e 'Honky Cat' formaram a espinha dorsal de um show que mergulhou nos melhores anos de sua produção. Entre 1969 e 1976, o cantor lançou nada menos que 11 álbuns de estúdio, um ritmo de criação praticamente impossível de replicar nos padrões da indústria moderna.

Aquele período não apenas consolidou Elton como megaestrela, mas também transformou permanentemente a música de arena. Ele foi crucial para que o piano se estabelecesse como instrumento vital do rock de estádio e do soul radiofônico, quebrando a dominância de guitarras e tornando as teclas tão poderosas quanto as seis cordas. Essa herança estava viva e pulsante na apresentação do Rock in Rio, especialmente nos momentos mais agitados da noite, quando a sequência 'Crocodile Rock', 'Saturday Night's Alright for Fighting' e 'I'm Still Standing' acelerou corações perto de 100 mil espectadores.

A parceria com Bernie Taupin que desafia distâncias

Desde 1967, Elton trabalha com o letrista Bernie Taupin em uma das parcerias mais longas e bem-sucedidas da história da música. Curiosamente, o processo criativo acontece de forma praticamente à distância. Bernie prepara as letras prontas, Elton as lê, seleciona algumas e compõe a melodia e estrutura musical em menos de uma hora, quase sempre sem estarem no mesmo ambiente.

Esse sistema não apenas funcionou, como produziu alguns dos maiores clássicos da história do rock. As melodias grandiosas associadas à escrita melancólica de Taupin criaram uma fórmula que atravessou gerações. No Rock in Rio, cada uma dessas composições ganhou peso adicional quando Elton cantou 'Candle in the Wind' com uma reflexão sobre Marilyn Monroe, ou quando 'Cold Heart' apareceu com Dua Lipa no telão, conectando passado e presente da música popular.

Qualidade versus produção visual

Se a execução musical foi impecável, a produção visual apresentou um paradoxo. Projeções aleatórias dominaram os telões—cenas do filme 'Rocketman', uma garota quebrando vidro de carro com skate—mas em canções delicadas como 'Tiny Dancer' e 'Honky Cat', o cantor sequer aparecia nas telas. Para um festival com dezenas de milhares de pessoas, essa escolha representou perda clara: fans nos setores mais distantes viam apenas imagens abstratas enquanto a lenda se apresentava.

O intervalo prolongado entre shows garantiu que Elton voltasse com força, entoando 'I'm Still Standing' não apenas como música, mas como afirmação de presença. A torcida do Brasil segue sendo para que ele continue em pé e nos palcos por muito tempo ainda.

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