Gilberto Gil caminhou lentamente até o Palco Mundo do Rock in Rio na noite de segunda-feira, 7 de janeiro de 2026, vestindo um conjunto branco cravejado de pedrinhas em prata e carregando sua guitarra. Aos 84 anos, o cantor baiano retornava ao festival que o viu nascer como fenômeno internacional quarenta e um anos atrás. O que muitos esperavam ser uma celebração plena transformou-se em uma noite repleta de nuances, repleta de talento, mas também carregada de uma sinceridade que poucos artistas conseguem manter diante de multidões.

Para abrir seu caminho na noite, Gil escolheu os versos 'Eu posso decidir se vivo ou morro porque sou vivo, vivo para cachorro' de 'Cérebro Eletrônico', lançada em 1969. Uma imagem de sua cabecinha branca rodava em 360 graus no telão enquanto o público se levantava. Mas foi quando ele se dirigiu diretamente ao público que o tom da noite ganhou contornos mais profundos. 'Eu estive aqui no primeiro Rock in Rio. Talvez esse seja o meu último. Estou cansado, vamos ver', disse com aquela voz que marcou gerações.

Uma carreira pontuada por retornos ao festival

A história de Gilberto Gil no Rock in Rio é praticamente a história do próprio festival. Ele esteve presente na edição inaugural de 1985, quando o evento se consolidava como um dos maiores festivais de música do mundo. Retornou novamente em 1985, marcando sua segunda apresentação na mesma série de shows que inaugurou a era de ouro do evento carioca. Depois veio 2001, quando o festival conheceu uma pausa e Gil manteve a tradição viva. E em 2022, quando o Rock in Rio ressuscitava em novo formato, lá estava ele novamente. Agora, nesta quinta aparição, o cantor chegava após uma temporada intensa.

A turnê 'Tempo Rei' havia passado por Brasil, Argentina e Chile, com aproximadamente 30 apresentações que se estenderam até março, encerrando-se no Allianz Parque, em São Paulo. Os shows foram comercializados como uma despedida, mas Gil esclareceu na época que era adeus apenas às grandes turnês. Agora, porém, a conversa parecia apontar para algo ainda mais definitivo.

Maestria apesar do cansaço físico

Quem compareceu àquele show, porém, deixou a Cidade do Rock com uma constatação curiosa: mesmo visivelmente cansado, Gilberto Gil ainda domina completamente qualquer palco em que pisa. Andou pouco pelo espaço, é verdade. Sua voz estava visivelmente fraca, um sussurro delicado comparado aos tempos de glória. Mas a maestria permanecia intocada, aquela sabedoria rítmica e melódica que apenas alguém que passou toda uma vida destrinchando os mistérios da música consegue manter.

Em pouco mais de uma hora, Gil emendou dezesseis faixas que traçavam um mapa de sua carreira. 'Andar com Fé', aquela que virou praticamente um hino de esperança em tempos difíceis. 'Toda Menina Baiana', a sensualidade baiana cristalizada em notas. 'Realce', 'Pela Internet', 'Palco' — cada uma carregando histórias de uma vida inteira dedicada à música. Ele falou em inglês para parte da plateia, fez uma reverência a Bob Marley e a Rita Lee, convocando para o palco o produtor Liminha para fazer o baixo em 'Vamos Fugir', lançada em 1984.

A preocupação com o legado musical

Dias antes do show, Gilberto Gil havia deixado enquetes em suas redes sociais pedindo aos seguidores que o ajudassem a escolher quais músicas deveriam compor o setlist. Esse gesto aparentemente singelo revela na verdade uma preocupação profunda: como garantir que um repertório repleto de histórias de amor, canções de ninar, dúvidas existenciais, protestos e mensagens de esperança continue ecoando pelas gerações futuras quando ele decidir parar de vez.

A discografia de Gil funciona como um arquivo vivo de uma existência inteira. São os causos de um homem que sofreu perdas, que viu amigos partirem, que enfrentou prisões e silêncios, mas que teima, mantém fé e insiste em fazer festa. Há 84 anos ele vem nos contando essas histórias, e cada nota que sai de seu violão carrega o peso e a leveza dessa travessia.

Quando Juliette o provocou brincalhonamente em um programa de televisão dizendo 'Tenho a sensação de que o senhor sabe alguma coisa que ninguém mais na humanidade sabe e que a qualquer momento vai nos contar', ela apenas externalizava o que muitos sentem ao observar Gilberto Gil. Existe uma sabedoria acumulada ali, uma compreensão do mundo que transcende explicações simples.

Naquela segunda-feira no Palco Mundo do Rock in Rio, enquanto sua silhueta branca brilhava sob os refletores e sua voz sussurrada flutuava sobre a multidão, ficava claro que talvez este tenha sido realmente um momento de virada. Não porque Gilberto Gil desaparecerá da música brasileira — sua discografia garante isso. Mas porque o homem que trouxe 'Cérebro Eletrônico' e tantas outras obras-primas para o mundo finalmente reconhece que seu corpo pede repouso, enquanto sua obra segue eterna.

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