O quarto dia do Rock in Rio 2026 entrou para os registros do festival como uma noite de contraste marcante: enquanto a lenda britânica Elton John comandava o palco principal com a energia de quem recusa aposentadoria aos 79 anos, o ícone brasileiro Gilberto Gil, aos 84, sussurrava em tom reflexivo que talvez estivesse tocando pela última vez na Cidade do Rock. No mesmo período, gerações se encontravam, releituras ganhavam novos significados e nem tudo que brilhava no palco conseguia contagiar a multidão.
Elton John e o retorno triunfal após 11 anos
Aos 79 anos, Elton John provou que a idade é apenas um número quando se tem piano, uma voz que ecoa através de décadas e um guarda-roupa tão vibrante quanto sua discografia. Trajando um terno de paletó amarelo fluorescente combinado com camisa azul-marinho, o cantor e pianista inglês se tornou o headliner mais velho da história do Rock in Rio, oferecendo um show de 24 músicas em 2 horas e 15 minutos de pura devoção ao seu legado.
Sua volta ao Brasil após 11 anos reacendeu a chama de fãs que, conforme relatórios da plateia, tinham cruzado os braços e ficado de bico quando a turnê de despedida do artista terminou em 2023, após 330 shows, deixando o país de fora dos planos. 'Candle in the Wind', sua releitura de 'Skyline Pigeon' (trilha da novela 'Carinhoso' de 1973) e a colaboração com Dua Lipa através de 'Cold Heart' exibida no telão foram momentos que reafirmaram por que Elton John não precisa apenas de economia nas interações com o público para manter a plateia sob seu feitiço.
As interações foram econômicas, mas certeiras. Quando apresentou 'Candle in the Wind', lembrou que 2026 marcaria o centésimo aniversário de Marilyn Monroe. Ao exibir 'Skyline Pigeon', contou que a música foi a mais rápida que escreveu com seu parceiro Bernie Taupin e que é popular apenas no Brasil. Esses detalhes pequenos revelaram um artista que conhece seu público tanto quanto seu próprio instrumento.
Gilberto Gil: a despedida que pode ser definitiva
Se Elton John respirava juventude e energia renovada, Gilberto Gil chegava ao palco do Rock in Rio em sua quinta apresentação no festival com a aura de alguém que sabe que os tempos mudam. Sua voz estava fraca, seus passos pelo palco eram poucos e calculados, mas sua maestria permanecia intacta como um tesouro guardado ao longo das décadas.
Aos 84 anos, Gil não apenas tocou: reimplantou suas canções em um solo de pouco mais de uma hora com 16 faixas que atravessavam diferentes capítulos de sua vida. De 'Andar com Fé' até 'Pela Internet' e 'Palco', cada música carregava histórias de amor, canções de ninar, dúvidas existenciais, protestos e mensagens de esperança que Gil reuniu em uma trajetória de transformação constante.
Quando afirmou que 'talvez, quem sabe, seja o último', não estava falando sobre aposentadoria das grandes turnês apenas. O que ecoava naquele palco era uma preocupação legítima sobre legado: como garantir que um repertório tão repleto de significado continue ecoando pelas gerações futuras quando ele finalmente decidir parar de fazer shows? Seus fãs deixaram o palco em silêncio contemplativo, sabendo que tinham presenciado algo que pode não se repetir.
Luísa Sonza e os desafios de dividir atenção
Nem tudo correu perfeitamente naquela noite. Luísa Sonza enfrentou um dos maiores desafios de quem se apresenta logo antes ou durante um headliner de peso: conseguir reunir plateia. Seu palco estava vazio o suficiente para que os curiosos conseguissem se aproximar da grade com facilidade, precisando apenas desviar de alguns fãs remanescentes de Elton John.
Os problemas técnicos também a perseguiram. O som estava embolado, com sua voz frequentemente escondida em uma massa sonora confusa, especialmente em faixas de batidas pesadas como 'Motinha 2.0'. Apesar de sua evolução considerável como cantora, era genuinamente difícil acompanhar as letras se você não as conhecesse de antemão. O bloco de bossa nova com Roberto Menescal, que Sonza descreveu como 'o show mais importante da sua carreira', trouxe 'Samba de Verão' como seu ponto mais alto, quando finalmente sua performance encontrou o equilíbrio sonoro necessário.
Encontros geracionais e pontes musicais
Enquanto isso, outros artistas construíram suas próprias narrativas na programação do dia. Roupa Nova retornou ao festival 35 anos após sua última apresentação, convocando Guilherme Arantes, que aos 73 anos fazia sua estreia no Rock in Rio. Vanessa da Mata costurou 20 anos de carreira em um show que celebrou sua trajetória sem se render completamente à nostalgia, enquanto Péricles deixou de lado samba e pagode para prestar uma homenagem exclusiva à Motown Records e à música soul norte-americana.
Jon Batiste, por sua vez, conduziu seu show como um pastor em missa espiritual, unindo samba, jazz, blues e gospel sob a premissa de que 'tudo faz bem para a alma'. A islandesa Laufey, aos 27 anos, trouxe seu híbrido delicado de smooth jazz e bossa nova, arriscando-se a cantar 'Perdido de Amor' de Luiz Bonfá em português aproximado, o que acabou sendo mais fofo do que perfeito.
O quarto dia do Rock in Rio 2026 ficará registrado não apenas pelos números ou pelos nomes famosos, mas pelas pequenas decisões: Elton John escolheu voltar, Gilberto Gil escolheu avisar que estava cansado, e Luísa Sonza descobriu que às vezes o palco mais importante pode estar tomado por multidões invisíveis que só enxergam quem brilha mais forte naquela noite.