A madrugada de terça-feira trouxe nova escalada do conflito entre Rússia e Ucrânia, com Moscou lançando um ataque em larga escala contra a capital ucraniana poucas horas após a saída dos enviados americanos Steve Witkoff e Jared Kushner de Kiev. O bombardeio, que deixou ao menos duas pessoas mortas e dez feridas, reforçou a tensão diplomática em um momento em que negociações para encerrar a guerra aparecem como remota possibilidade de solução.
Os mísseis e drones russos atingiram áreas residenciais e infraestruturas civis em Kiev durante a madrugada, provocando incêndios e destruição em edifícios. Segundo o prefeito da capital, Vitali Klitschko, moradores ficaram presos em um prédio residencial após os impactos. A administração militar informou que destroços atingiram um edifício de cinco andares e outro bloco de três pavimentos, deixando um rastro de devastação que se estende por toda a região metropolitana.
Dimensão do ataque aéreo
A Força Aérea da Ucrânia informou que a Rússia lançou dezenas de mísseis de cruzeiro e aproximadamente 166 drones contra o país durante o ataque. A maioria das operações concentrou-se na região de Kiev e na área de Odessa, no sul do país. Ainda que a defesa aérea ucraniana tenha abatido 142 drones, 31 dos 32 mísseis de cruzeiro e dois mísseis balísticos, o saldo foi expressivo em destruição de civis.
Pelo menos 14 prédios residenciais foram danificados, além de um alojamento estudantil, uma escola, uma clínica e diversos galpões. A extensão dos danos aponta para uma ofensiva bem planejada e coordenada, não um simples bombardeio de represália. Os russos afirmam que os ataques miravam instalações militares e logísticas, bem como o porto de Chornomorsk no Mar Negro, mas testemunhas e autoridades ucranianas indicam que as vítimas foram principalmente civis.
Reação ucraniana e resposta diplomática
A Ucrânia respondeu aos ataques russos com seus próprios drones. Autoridades da região de Saratov, localizada à margem do rio Volga, informaram que drones ucranianos atingiram infraestrutura civil e deixaram feridos na Rússia. Aquela região abriga uma grande refinaria da estatal Rosneft, além de outras instalações industriais e militares de importância estratégica. Na região fronteiriça de Bryansk, na localidade de Starodub, um ataque ucraniano deixou uma pessoa morta, segundo o governador interino Yegor Kovalchuk.
O Ministério das Relações Exteriores da Ucrânia não hesitou em relacionar a ofensiva ao contexto diplomático. O chanceler Andrii Sybiha publicou nas redes sociais uma crítica contundente, afirmando que o presidente russo Vladimir Putin ordenou o novo ataque em larga escala logo após a partida dos negociadores americanos. A frase emblemática utilizada por Sybiha foi: 'Os mísseis balísticos falam mais alto que as palavras sobre diplomacia'. O chanceler pediu reforço da pressão internacional sobre Moscou e o envio de mais interceptadores para a defesa aérea ucraniana.
Preocupações regionais na Europa
Os ataques geraram reflexos imediatos fora do teatro de operações principal. A Polônia, membro tanto da Otan quanto da União Europeia, realizou operações aéreas preventivas e mobilizou aeronaves em resposta à ofensiva russa. O aeroporto de Lublin, localizado no leste polonês, chegou a suspender temporariamente suas operações por questões de segurança.
A situação espelha preocupações crescentes na Europa com a chamada 'guerra de drones'. Segundo levantamento realizado pelo portal G1, nos últimos dois anos drones envolvidos no conflito já cruzaram ou caíram em pelo menos 20 países europeus. Esse padrão alimenta temores reais sobre uma possível escalada de tensões entre Moscou e a Otan, transformando o conflito ucraniano em uma questão continental.
Apoio internacional e negociações incertas
Enquanto isso, o Reino Unido anunciou um pacote de 100 milhões de libras, equivalente a aproximadamente 692 milhões de reais, para fortalecer a defesa aérea ucraniana. O pacote inclui o fornecimento de mísseis Patriot, arma crucial para interceptar ataques aéreos russos.
Os ataques ocorreram dias após as reuniões em Moscou e Kiev conduzidas pelos enviados de Donald Trump. Witkoff e Kushner tentam impulsionar negociações para encerrar a guerra iniciada pela invasão russa em fevereiro de 2022. Embora o porta-voz do Kremlin tenha afirmado existirem perspectivas para novas conversas entre Rússia, Ucrânia e Estados Unidos, ele também ressalvou que ainda é cedo para definir quando e onde um novo encontro poderá ocorrer.
O presidente ucraniano Volodymyr Zelensky classificou as conversas recentes como 'construtivas' e informou que novos contatos diplomáticos já estão sendo preparados. Segundo ele, as discussões abordaram necessidades de defesa aérea, cooperação tecnológica e apoio internacional para o próximo inverno. Contudo, a sequência de ataques russos pouco depois da saída dos negociadores americanos sugere que qualquer acordo permanece longe de se concretizar, e que a linguagem das armas continua sendo a dominante entre as partes.