Quando um artista consagrado no pagode e no samba decide abandonar completamente sua zona de conforto musical para abraçar um gênero totalmente diferente, geralmente há dois caminhos: a surpresa positiva ou a decepção segura. No caso de Péricles, que se apresentou no Palco Sunset do Rock in Rio na segunda-feira (7 de setembro), o resultado foi uma demonstração cristalina de por que ele carrega o apelido de 'Rei da Voz'.
A apresentação exclusiva marca um ponto de virada interessante na trajetória do cantor. Conhecido por sucessos como 'Até que durou' e 'Melhor eu ir', Péricles colocou na mala a levada do pagode e investiu integralmente em uma homenagem à Motown Records, a gravadora que revolucionou a música popular norte-americana e teve papel determinante na integração racial do cenário musical dos Estados Unidos.
Uma noite dedicada à história da Motown
Fundada em 1959 pelo visionário Berry Gordy Jr., a Motown Records funcionava em um cenário de segregação racial em grande parte dos estados americanos. A coragem de colocar artistas negros como protagonistas, em uma época em que isso era um ato revolucionário, transformou a gravadora em sinônimo de autenticidade e quebra de paradigmas. Esse legado ressoou profundamente com Péricles, que vê paralelos diretos entre o espírito revolucionário de uma gravadora que ousou desafiar a status quo e sua própria jornada empreendedora.
A ideia do show partiu de Zé Ricardo, vice-presidente artístico da Rock World, e foi imediatamente abraçada pelo cantor. O resultado foi uma noite em que o português raramente era ouvido além das conversas entre Péricles e o público presente. Em seu lugar, ressoavam os clássicos que moldaram gerações: Marvin Gaye, Stevie Wonder, The Supremes, The Temptations, Jackson 5, Lionel Richie, Smokey Robinson e Boys II Men tomaram conta de cada nota.
Versatilidade vocal em evidência
Quem chegou ao Palco Sunset esperando 'Até que durou' ou relembranças do Exaltasamba pode ter deixado o local com certa frustração. Mas aqueles que compareceram abertos à experiência e compreendendo o verdadeiro significado daquele apelido de 'Rei da Voz' testemunharam algo memorável: uma aula de versatilidade vocal e uma demonstração de talento que transcende gêneros musicais.
Com um figurino completamente prateado e uma capa estampada com rostos de lendas da Motown, Péricles iniciou o repertório com 'Ain't No Mountain High Enough', de Marvin Gaye. Sequencialmente vieram 'I Want You Back' do Jackson 5, 'My Girl' dos The Temptations, 'Cruisin'' de Smokey Robinson, 'I'll Be There' novamente do Jackson 5, 'End of the Road' do Boys II Men, 'Let's Get It On' e 'All Night Long' de Lionel Richie. O setlist prosseguiu com 'ABC' e 'Superstition' para encerrar a apresentação com 14 faixas no total.
A estrutura montada para o show reforçava a seriedade da proposta. Uma banda azeitada com nove músicos e quatro backing vocals foi especialmente criada para o festival. Ao longo de toda a apresentação, Péricles demonstrou conforto absoluto, como se realizasse esse show especial regularmente. O artista tirou onda, dançou e se divertiu genuinamente no palco, transmitindo uma leveza que contagiava a plateia.
Empreendedorismo como inspiração
Para Péricles, a Motown vai além de uma simples fonte musical. Em entrevista recente ao g1, dias antes da apresentação, ele compartilhou como a gravadora o inspirou a ter coragem de criar seu próprio selo e sua própria empresa, a Farias Produções. 'Exemplos como o Motown mexem com a gente', declarou o cantor, evidenciando que a admiração extrapola o aspecto artístico e toca questões profundas de autonomia e criatividade empresarial.
Vale notar que os ensaios para esse show aconteceram em paralelo com a produção e gravação de um novo álbum de Péricles, agendado para lançamento no final de setembro. Apesar dessa demanda dupla, o artista manteve total compromisso com a qualidade da apresentação no Rock in Rio.
O futuro do pagode no festival
Observadores do cenário musical brasileiro notam que Péricles ainda não teve oportunidade de se apresentar como protagonista principal no Rock in Rio cantando sua própria história e seu legado no samba e pagode. Outros artistas do gênero, como Belo, tiveram espaço no Palco Favela quase simultaneamente com Péricles no festival. O 'Rei da Voz' já possui um discurso preparado para quando essa oportunidade chegar, defendendo que o samba e o pagode possuem a mesma atitude revolucionária do rock and roll: a de transformar e revolucionar a sociedade através da música.
A apresentação de segunda-feira deixou clara uma lição importante: artistas genuinamente talentosos não são prisioneiros de seus gêneros. E quando Péricles finalmente cantar seus sucessos no palco do Rock in Rio, carregará consigo não apenas o peso de sua carreira, mas também a inspiração de lendas que, como ele, compreenderam que a verdadeira revolução musical vem de quem tem coragem de arriscar e reinventar.