A volta do Rock in Rio em 2026 começou aquecida, com quatro dias de atrações variadas que movimentaram a Cidade do Rock. Do rock ao metal, passando pela música dos anos 2000 e terminando em MPB e jazz, a primeira semana do festival trouxe momentos inesquecíveis para fãs brasileiros e turistas que lotaram os palcos Sunset e Mundo. Porém, nem tudo foram aplausos — algumas performances ficaram a desejar e revelaram desafios da logística de um evento desta magnitude.
Os cinco melhores shows da semana
Elton John conquistou o topo da lista de melhores apresentações com seu retorno ao Brasil após 11 anos de ausência. Trajando um terno de paletó amarelo fluorescente que se tornou tão icônico quanto suas músicas, o britânico subiu ao palco como o headliner mais velho da história do festival. Aos 57 anos (na época do show), ele demonstrou vigor ao cantar sucessos que marcaram gerações inteiras, como 'I Guess That's Why They Call It the Blues' e 'Goodbye Yellow Brick Road'. Conhecer pessoalmente o peso emocional desses clássicos ganha uma dimensão ainda maior quando se sabe que Elton desacelerou a carreira nos últimos anos. Sua terceira passagem pelo Rock in Rio e oitava visita ao país consolidaram seu legado de artista multissecular que continua de pé.
Em segundo lugar, o Bring Me The Horizon ofereceu um show visceral no Palco Sunset. Oli, vocalista da banda, provou ser um showman nato ao convocar fãs para o palco, surpreender o público com músicas do primeiro álbum lançado em 2006 e até tropeçar verbalmente ao chamar o Rio de Janeiro de São Paulo. A plateia respondeu formando rodinhas de hardcore punk, com sinalizadores colorindo a noite. A energia foi tão contagiante que ninguém se importou com os pequenos deslizes do vocalista.
Péricles entregou uma performance arriscada ao escolher o soul e o R&B norte-americanos como centro de seu show, deixando de lado o samba e o pagode que o consagraram. Hits como 'Stand by Me' e peças da Motown ocuparam praticamente toda a setlist de segunda-feira. Essa aposta funcionou bem porque o público respondeu à nostalgia dos clássicos americanos e à reinterpretação artística de um brasileiro que decidiu explorar outras raízes musicais.
O Foo Fighters, na abertura do festival na sexta-feira, mostrou por que permanece relevante após seis vindas anteriores ao Brasil. Dave Grohl, mesmo com 57 anos e histórico de problemas vocais, entregou uma performance segura. A inclusão das baladas 'Wheels' e 'Marigold' no repertório e a chegada do novo baterista Ilan Rubin marcaram uma mudança na formação da banda.
Jon Batiste fechou a lista dos melhores com uma apresentação que transcendeu o conceito tradicional de show. O músico conduziu o domingo como um pastor em um culto, unindo a cultura americana e brasileira pela música. Começou acapella, como uma prece, e terminou em festa, cercado por percussionistas cariocas. Sua frase 'Isso não é um show, é uma prática espiritual' resumiu bem a profundidade da experiência.
Os pontos fracos da semana inaugural
Nem tudo brilhou nos primeiros dias do festival. Nelly chegou para decepcionar com uma performance que prescindia de qualquer estrutura artística sofisticada. Com apenas um DJ, um hype man e uma playlist ativada, o rapper de 50 anos gritou palavras de ordem e trechos de seu próprio repertório, além de versões truncadas de sucessos alheios como Michael Jackson. Era como se três amigos tivessem entrado no palco e ligado uma playlist de 'This is Nelly' no karaokê. O público aprovava a nostalgia, mas continuava conversando, com picos de tagarelice quando Nelly não cantava seus hits.
MGK enfrentou uma plateia hostil no sábado de metal. Colson Baker, nome real do artista, tentou equilibrar músicas mais pesadas com seu repertório pop-punk, mas o público dividido entre fãs dele e devotos do Avenged Sevenfold não colaborava. Nervoso, ele pausou o show para acalmar hecklers e explicar que era um 'cara de Ohio vivendo seu sonho'. A performance mais sóbria de 'My ex's best friend' não foi suficiente para reverter a hostilidade da plateia.
Hot Milk sofreu pela localização temporal: apesar de ocupar um horário privilegiado no Palco Sunset na sexta, a banda britânica encontrou uma plateia apática e bem menos engajada que nos horários anteriores. A vocalista Han Mee até gritou 'Brasil, cadê vocês?' com expressão decepcionada, mas pouco conseguiu reverter a apatia do público.
Luísa Sonza decepcionou pela escolha de conteúdo e pela qualidade técnica. Apesar do nome 'Luísa Sonza convida Menescal' sugerir uma homenagem à bossa nova, ela ofereceu seu recorrente show pop com apenas um pequeno bloco dedicado ao gênero. O público foi o menor em suas três passagens pelo Rock in Rio, e problemas técnicos — som embolado e estourado — tornaram difícil entender a voz dela em canções de batidas pesadas como 'Motinha 2.0'.
O primeiro fim de semana do Rock in Rio 2026 provou que nem mesmo um festival da magnitude dessa instituição escapa de variações qualitativas. Enquanto Elton John e Bring Me The Horizon entregavam experiências memoráveis, Nelly mostrava que apenas presença não garante uma boa apresentação. O festival continua sua trajetória em busca do equilíbrio entre segurança artística e risco criativo, e essa tensão permanecerá visível até o encerramento da segunda etapa.