A Amazônia Legal virou um tabuleiro de xadrez onde o jogo não é de estratégia, mas de sangue. Um novo mapeamento do Fórum Brasileiro de Segurança Pública revelado esta semana deixa claro: pelo menos 22 facções criminosas nacionais e estrangeiras estabeleceram suas operações na maior floresta tropical do mundo, transformando a região em epicentro de violência e tráfico de drogas. Os números são assustadores e refletem uma realidade que extrapola os limites das penitenciárias para atingir cidades inteiras, vilarejos, e até mesmo comunidades indígenas.
O levantamento intitulado 'Cartografias da violência na Amazônia' foi capaz de localizar a presença de grupos criminosos em 178 dos 772 municípios da região, o que representa quase um a cada quatro cidades. Mais preocupante ainda: em 80 desses municípios, há disputa aberta entre facções rivais. As capitais amazônicas de Manaus, Porto Velho, Macapá, Rio Branco e Palmas encontram-se no epicentro desses conflitos, tornando-se pontos críticos de confronto territorial.
Uma transformação violenta a partir de 2016
Durante muitos anos, a criminalidade organizada na Amazônia manteve características locais e regionais. Facções como a Família do Norte (FDN) operavam com certa autonomia, ainda que em contato com redes maiores. Esse cenário mudou dramaticamente a partir de 2016. Aiala Couto, pesquisador da Universidade do Estado do Pará e do Fórum Brasileiro de Segurança Pública, explica que ocorreu uma 'absorção dessas facções locais pelas facções do Sudeste, bem como o surgimento de grupos regionais dentro da região Amazônica'.
O que precipitou essa transformação foi a ruptura de um acordo de convivência entre as duas maiores facções do Sudeste: o Primeiro Comando da Capital (PCC) e o Comando Vermelho (CV). Renato Sérgio de Lima, diretor-presidente do Fórum Brasileiro de Segurança Pública, destaca que essas organizações passaram a disputar protagonismo na Amazônia, levando a consequências diretas e devastadoras.
A explosão de violência resultante dessa disputa ganhou visibilidade nacional entre o final de 2016 e o início de 2017, quando uma série de massacres e rebeliões em penitenciárias chocou o país. O episódio da penitenciária de Alcaçuz, no Rio Grande do Norte, deixou 66 detentos mortos. Poucos dias depois, o Complexo Penitenciário Anísio Jobim, no Amazonas, registrou 56 assassinatos. Esses eventos não foram isolados; representavam a ponta do iceberg de uma criminalidade que começava a descontrolar-se completamente.
Índices de violência alarmantes
Os dados revelam a dimensão real da crise. A taxa de mortes violentas intencionais na Amazônia Legal é de 33,8 para cada 100 mil habitantes, cifra que supera em 45% a média nacional de 23,3 por 100 mil. Em 2017, o Brasil atingiu seu pico histórico de mortes violentas na série coletada pelos pesquisadores: 63.880 casos. Quinze municípios amazônicos apresentaram taxas médias superiores a 80 mortes por 100 mil habitantes no triênio 2020-2022, concentrados principalmente nos estados do Pará e Mato Grosso.
Mas a violência não se limita aos homicídios comuns. A Amazônia convive com epidemias paralelas de crimes sexuais e feminicídios. A taxa de feminicídio foi de 1,8 para cada 100 mil mulheres, superando em 30,8% a média nacional. Os estupros alcançam 49,4 vítimas por 100 mil habitantes, 33,8% acima da média do país. Indígenas, historicamente vulneráveis, enfrentam mortes violentas em taxa 26% superior à registrada fora da região.
O tráfico e a floresta sob ameaça
O crescimento do tráfico de drogas na Amazônia acompanha a expansão territorial das facções. Entre 2019 e 2022, a apreensão de cocaína pelas polícias estaduais cresceu impressionantes 194,1%, totalizando cerca de 20 toneladas. A Polícia Federal, por sua vez, apreendeu 32 toneladas de cocaína em 2022 sozinha, um aumento de 184,4% em relação a 2019. Os últimos quatro anos mostram um disparo nas apreensões de drogas, confirmando que a região consolidou-se como rota essencial do narcotráfico internacional.
A presença de facções criminosas não se restringe ao tráfico de cocaína. A proximidade com fronteiras de Peru, Venezuela e Colômbia atrai organizações para outras atividades ilícitas: contrabando de armas, exploração ilegal de madeira, minério e pesca predatória. Registros de crimes vinculados ao desmatamento cresceram 85,3% entre 2018 e 2022, totalizando 619 registros apenas no último ano. Incêndios criminosos aumentaram 51,3% no mesmo período. Essa fusão do crime organizado com práticas ambientais ilegais cria uma ameaça dupla: à segurança pública e à preservação da Floresta Amazônica.
Sistema prisional sob pressão
A resposta estatal ao crescimento criminoso também mostra seus limites. Em dez anos, a taxa de pessoas no sistema prisional da Amazônia Legal cresceu 67,3%, enquanto a média nacional ficou em 43,3%. Registros de armas de fogo aumentaram 91% entre 2019 e 2022 na região, contra 47,5% no restante do país. Essas cifras indicam que o encarceramento em massa não resolveu o problema, mas o reconfigura constantemente.
Conforme apontam os autores do estudo, não é possível debater preservação da Floresta Amazônica sem considerar a ameaça que o crime organizado representa. A questão ambiental, de segurança e de direitos humanos converge num ponto crítico: o futuro de povos indígenas, ribeirinhos e quilombolas que habitam a região, cujas terras agora se tornaram palco de disputas entre organizações criminosas que não reconhecem fronteiras territoriais nem morais.