Quando se trata de reduzir a violência urbana, a primeira solução que vem à mente de autoridades e cidadãos é aumentar o número de policiais nas ruas. A lógica parece óbvia: mais agentes de segurança significariam mais proteção e menos espaço para criminosos atuarem. Mas a realidade brasileira aponta para algo bem diferente. Dados do Monitor da Violência revelam um paradoxo perturbador: estados que investem pesadamente em efetivo policial frequentemente registram as maiores taxas de homicídios do país, enquanto regiões com menos policiais conseguem manter índices de criminalidade muito mais baixos.
O contraste entre Amapá e Santa Catarina
O exemplo mais gritante dessa inversão de expectativas está na comparação entre Amapá e Santa Catarina. O Amapá possui a proporção mais alta de policiais militares do Brasil: 4,2 PMs para cada mil habitantes. Ainda assim, lidera o ranking nacional de homicídios com uma taxa de 45,2 mortes por 100 mil habitantes. Do outro lado do espectro, Santa Catarina mantém o menor efetivo policial do país, com apenas 1,3 policiais por mil habitantes, e consegue registrar a segunda menor taxa nacional de homicídios: 7,9 por 100 mil habitantes.
Este não é um caso isolado. A análise dos números revela um padrão consistente. Sete dos oito estados brasileiros com as menores taxas de homicídio possuem efetivo policial abaixo da média nacional. Além de Santa Catarina, esse grupo inclui São Paulo (6,7 homicídios por 100 mil), Minas Gerais (13,1 por 100 mil), Goiás (15,4 por 100 mil), Mato Grosso do Sul (16,2 por 100 mil) e Rio Grande do Sul (16,5 por 100 mil). A única exceção notável é o Distrito Federal, que apesar de registrar apenas 9,9 homicídios por 100 mil habitantes, mantém o terceiro maior efetivo de policiais militares do Brasil, com 3,8 por mil.
Por que Brasília é diferente?
A presença de um efetivo policial maior em Brasília sem o correspondente aumento em violência não contradiz a tendência geral, mas sim reforça uma tese importante: a qualidade da polícia importa tanto quanto sua quantidade. A corporação brasiliense diferencia-se pelo maior salário médio do país, custeado com recursos da União. Esse detalhe aparentemente técnico reflete uma realidade crucial: policiais bem remunerados, portanto menos vulneráveis à corrupção, conseguem exercer suas funções de forma mais legalista e controlada.
Chefes de polícia, segundo pesquisadores que acompanham o tema, costumam repetir uma máxima: é preferível trabalhar com uma polícia pequena, mas controlada e legalista, do que ficar refém de uma polícia numerosa e sem controle. Este princípio ganha ainda mais relevância quando observamos os dados dos estados mais violentos do Brasil.
Os violentos: muitos policiais, pouco controle
Entre os seis estados com as maiores taxas de homicídio, cinco possuem mais policiais do que a média nacional. Alagoas (36,2 homicídios por 100 mil), Amazonas (34,1 por 100 mil), Bahia (34,3 por 100 mil) e Ceará (33,8 por 100 mil) compartilham esse perfil. A única exceção é Pernambuco, com a segunda taxa mais elevada do país (38,8 casos por 100 mil) mas efetivo abaixo da média.
O Rio de Janeiro exemplifica até onde o descontrole corporativo pode levar. Com 2,7 policiais para cada mil habitantes, a PM carioca viu parte de seu contingente organizar milícias, integrar grupos especializados em assassinatos por encomenda e mergulhar em atividades criminosas. Esse fenômeno não é exclusivo do Rio. Outros estados brasileiros testemunham processo semelhante, com policiais envolvidos crescentemente em negócios ilegais, particularmente no mercado de drogas internacionalizado, que oferece margens lucrativas capazes de corromper até agentes públicos.
A letalidade policial como medida do caos
O nível dos desmandos corporativos pode ser medido pela letalidade policial. Em 2023, as polícias brasileiras foram responsáveis por 6.296 mortes. Desde 2018, as corporações nacionais ultrapassaram regularmente a marca de seis mil casos anuais, colocando o Brasil em primeiro lugar entre as polícias mais letais do mundo.
No Amapá, policiais foram autores de um em cada três homicídios registrados, totalizando uma taxa de 25 mortos por 100 mil habitantes. Na Bahia, foram 1.701 mortes por intervenção policial, representando 12 homicídios por 100 mil habitantes e 233 mortes a mais que no ano anterior. Essa realidade distorce completamente os registros oficiais. Enquanto o Monitor da Violência indica queda de 4% nos homicídios dolosos baianos, quando se somam as mortes causadas por policiais, o número sobe levemente 0,3%.
São Paulo inverte tendência positiva
A polícia paulista, que vinha registrando quedas importantes em letalidade nos últimos anos, teve aumento de 19% em 2023. O congelamento de verbas para câmeras em uniformes e a intensificação de operações violentas, como as ocorridas na Baixada Santista, modificaram o cenário. As operações Escudo e Verão isoladamente causaram 71 mortes.
Quando se contabiliza a totalidade das mortes por intervenção policial, identifica-se com clareza a gravidade do problema. Em 2023, policiais foram responsáveis por 14% de todos os homicídios nacionais. A carta branca para matar oferece incentivo importante para agentes dispostos a ingressar no crime, criando um ciclo perverso onde o descontrole corporativo alimenta simultaneamente a violência nas ruas e o envolvimento de policiais em atividades criminosas.