A Amazônia Legal enfrenta uma situação alarmante quando o assunto é tráfico de drogas. Um levantamento divulgado pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública (FBSP) nesta semana revela números preocupantes: as apreensões de cocaína triplicaram nos últimos quatro anos nos nove estados que compõem a região. Os dados, que cobrem o período entre 2019 e 2022, indicam não apenas uma possível maior eficiência das forças de segurança, mas também o acelerado crescimento da circulação de entorpecentes na área.

O estudo 'Cartografias da Violência na Amazônia' apresenta números impressionantes quando analisa cada instituição responsável pelas apreensões. A Polícia Federal aumentou suas capturas em 184,4%, passando de 11,3 toneladas em 2019 para 32 toneladas em 2022. Esse crescimento, porém, empalidece diante do desempenho da Polícia Rodoviária Federal, que registrou um aumento explosivo de 777,4% no mesmo período, saltando de 3,3 para 28,6 toneladas. As polícias estaduais também acompanharam a tendência, com elevação de 194,1%, atingindo 20,4 toneladas em 2022.

As organizações criminosas se expandem

Esses números servem como termômetro para compreender a realidade que afeta diretamente milhões de brasileiros na região Norte. A magnitude da apreensão não representa vitória completa das forças de segurança, mas evidencia a escala do problema. Pesquisadores vinculados ao FBSP apontam duas hipóteses principais para explicar tal crescimento: ou as polícias se tornaram significativamente mais eficientes em suas operações, ou a circulação de drogas realmente disparou na região.

Renato Sérgio de Lima, diretor-presidente do FBSP, fornece pistas importantes sobre qual hipótese parece mais plausível. Segundo ele, ao confrontar os dados brasileiros com relatórios do Escritório das Nações Unidas sobre Drogas e Crime (UNODC), fica claro que Peru, Colômbia e Bolívia passam por um boom na produção de cocaína. O UNODC registrou crescimento de 35% nas plantações de coca em 2021. 'A gente já estima que metade da produção de cocaína desses países passa pelo Brasil', afirma Lima, indicando que o Brasil funciona como rota estratégica para o tráfico internacional.

Defasagem nas Forças Armadas causa preocupação

Um ponto que chama a atenção no relatório diz respeito ao desempenho das Forças Armadas. Exército e Marinha, responsáveis pela segurança das fronteiras amazônicas, apreenderam juntos menos de 4 toneladas de cocaína e maconha em 2022. O documento do FBSP questiona explicitamente essa baixa produtividade, considerando que as Forças Armadas possuem mais recursos humanos do que as polícias e dispõem de equipamentos melhor adequados para atuar em locais remotos da Amazônia Legal.

A situação se torna ainda mais delicada quando observamos que o mapeamento das facções criminosas revelou a presença de pelo menos 22 grupos nacionais e estrangeiros operando na região. Desses 772 municípios que formam a Amazônia Legal, aproximadamente 178 já apresentam presença confirmada de organizações criminosas estruturadas.

Violência e criminalidade como efeitos colaterais

O crescimento do tráfico de drogas não ocorre em isolamento. A violência que acompanha essas atividades criminosas atinge níveis alarmantes na região. A taxa de mortes violentas intencionais na Amazônia chegou a 33,8 para cada 100 mil habitantes em 2022, representando 45% acima da média nacional, que ficou em 23,3. Quinze municípios apresentaram taxas ainda mais aterrorizantes, com médias superiores a 80 mortes por 100 mil habitantes durante o triênio 2020-2022, concentradas principalmente no Pará e Mato Grosso.

A violência de gênero também acompanha essa tendência alarmante. O feminicídio na Amazônia ocorre em taxa 30,8% superior à média nacional, enquanto casos de estupro são 33,8% mais frequentes. Indígenas enfrentam uma realidade ainda mais sombria, com taxas de morte violenta 26% maiores do que fora da região amazônica.

Indicadores de criminalidade em expansão

Outros indicadores complementam o retrato de uma região em crise. Os registros de crimes vinculados ao desmatamento cresceram 85,3% entre 2018 e 2022, totalizando 619 ocorrências apenas no último ano. Incêndios criminosos aumentaram 51,3% no mesmo período. A população carcerária amazônica cresceu 67,3% em uma década, superior ao crescimento nacional de 43,3%. Ainda mais preocupante: registros de armas de fogo na região aumentaram 91% entre 2019 e 2022, enquanto a média nacional ficou em 47,5%.

O cenário revelado pelo estudo do FBSP ilustra uma realidade complexa onde a Amazônia Legal se posiciona simultaneamente como vítima e corredor de atividades criminosas de impacto global. As apreensões crescentes de cocaína não celebram êxito, mas alertam sobre a magnitude da crise que requer reconfiguração estratégica das políticas de segurança, investimento ampliado em fronteiras e ação coordenada entre estados, instituições federais e organismos internacionais. A droga que passa pela região deixa um rastro de destruição que vai muito além dos números oficiais, afetando comunidades inteiras e especialmente populações vulneráveis como indígenas, mulheres e crianças.

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